Os golpes financeiros contra aposentado seguem mais ou menos sempre o mesmo roteiro: alguém liga ou manda mensagem dizendo que é do INSS, do banco ou de um escritório de advocacia, cria pressa, pede dados ou pede dinheiro. Quem está do outro lado da linha conta com o medo de perder o benefício pra fazer a pessoa baixar a guarda. Conhecer os cinco formatos mais comuns já cobre boa parte dos casos que aparecem no atendimento.
Em 2023, o INSS contabilizou mais de 100 mil contratos de consignado contestados por beneficiários que afirmaram não ter contratado o empréstimo. Em paralelo, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) registrou um aumento de 65% nas tentativas de fraude bancária em 2023, com prejuízo estimado em R$ 2,5 bilhões, boa parte mirando público idoso. Os cinco golpes abaixo respondem pela maioria das ocorrências relatadas a Procons e à Polícia Civil.
1. Empréstimo consignado não autorizado
Esse é o mais comum. Você abre o extrato do benefício e vê um desconto que não reconhece. O banco diz que existe um contrato assinado, mas você nunca pediu nada. Em muitos casos, alguém usou seus dados (CPF, número do benefício, cópia de RG) pra simular uma contratação por telemarketing, às vezes com gravação adulterada, às vezes com assinatura falsificada.
Sinais de alerta. Desconto novo no contracheque do INSS, valor que não bate com nenhum empréstimo que você lembra, ligação confirmando “o empréstimo que você contratou ontem” quando você não contratou nada, ou uma “central” perguntando dados pra “liberar o crédito que você pediu”.
O que fazer. O Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990) considera nulo o contrato feito sem autorização. Você pode contestar pelo Meu INSS, pedir o áudio da contratação (o banco é obrigado a guardar) e registrar boletim de ocorrência. E, antes do problema aparecer, vale ativar o bloqueio de novos consignados direto no app, quando ativo, banco nenhum consegue cadastrar empréstimo no seu nome. Se o desconto já apareceu, veja o passo a passo pra contestar empréstimo não autorizado.
2. Falsa central do INSS pedindo dados
O golpista liga dizendo que é da “central do INSS” e que existe um “problema” no seu benefício, pode ser revisão pendente, recadastramento, ou suspeita de fraude. Pra “resolver”, ele pede CPF, número do benefício, senha do Meu INSS, código que chegou por SMS, ou pede pra você instalar um aplicativo que daria “acesso direto ao perito”.
O INSS tem sido categórico sobre isso. Em alerta oficial, o instituto avisa: “O INSS nunca liga pedindo dados pessoais, senha ou pagamento de qualquer valor”. Toda comunicação oficial é feita pelo app Meu INSS, pelo 135 (quando você liga, não quando te ligam) ou por carta.
Sinais de alerta. Ligação dizendo que o benefício “vai ser bloqueado se você não confirmar agora”, pressa pra você passar a senha, pedido pra instalar app ou clicar em link de SMS, número desconhecido se identificando como INSS.
O que fazer. Desliga. Se ficou na dúvida, liga você mesmo no 135 ou entra no app Meu INSS, esses são os canais oficiais. Se já passou algum dado, troca a senha do gov.br imediatamente e registra a ocorrência. Senha do Meu INSS é igual senha de banco, não se passa pra ninguém, em nenhuma hipótese.
3. Falso advogado oferecendo revisão urgente
O golpista liga ou aparece em um grupo de WhatsApp dizendo que é advogado, que descobriu que você tem direito a uma revisão de aposentadoria de “R$ 30 mil, R$ 50 mil, R$ 100 mil”, e que o prazo está acabando. Pra dar entrada, pede um pagamento adiantado, “custas processuais”, “honorários de protocolo” ou “taxa do INSS”.
Advogado de verdade tem registro na OAB que dá pra consultar online em segundos. E revisão de aposentadoria não tem “taxa do INSS”, o pedido administrativo pelo Meu INSS não envolve essa cobrança, e quando há ação judicial, honorário sério costuma ser cobrado sobre o resultado, não antes.
Sinais de alerta. Promessa de valor exato (“você tem direito a R$ 47 mil”), pressa artificial (“o prazo é só essa semana”), cobrança de taxa antes de qualquer análise, abordagem em grupo de WhatsApp ou rede social, recusa em mostrar carteira da OAB.
O que fazer. Antes de fazer qualquer transferência, confirma três coisas: (1) o número de inscrição na OAB e se está ativo, (2) o endereço do escritório, (3) por escrito, o que exatamente está sendo prometido. Se virar a esquina alguma dessas perguntas, é golpe. O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003, art. 102) trata como crime apropriar-se de bens de idoso usando engano: “Apropriar-se de ou desviar bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da de sua finalidade”, pena de reclusão de 1 a 4 anos, mais multa. Registrar boletim de ocorrência tem peso.
4. Cartão consignado mascarado como empréstimo
Esse é mais sutil, e por isso pega muita gente. Você liga ou alguém liga pra você oferecendo “um empréstimo na sua aposentadoria, juro baixo, dinheiro na conta”. Você aceita. O dinheiro cai. Só que o contrato que você assinou não é de empréstimo comum, é de cartão de crédito consignado (o RMC) ou de cartão consignado de benefício.
A diferença muda tudo: no empréstimo comum, você paga parcelas fixas e o saldo zera no fim. No cartão consignado, o desconto mensal é só o mínimo da fatura, o resto vira rotativo com juros de cartão (que são bem mais altos), e a dívida fica andando junto. Tem gente que paga por anos e a dívida não diminui.
A Súmula 603 do Superior Tribunal de Justiça já reconheceu casos de venda casada e descontos abusivos nesse formato, e a Resolução CNPS 1.343/2023 alterou o teto de juros e a margem do consignado, mas o cartão RMC continua sendo cobrado com regra diferente do empréstimo.
Sinais de alerta. O vendedor fala “empréstimo” mas o contrato no fim chama de “cartão”; o valor descontado mensalmente é pequeno e não diminui o saldo total; aparece o termo “RMC”, “reserva de margem consignável” ou “saque na função cartão”; o desconto continua mesmo depois do “fim” do empréstimo.
O que fazer. Pega o extrato do INSS e confere a natureza do desconto, empréstimo aparece com prazo definido (ex.: 84 parcelas), cartão aparece como “RMC” ou “cartão consignado”. Se você achava que tinha contratado empréstimo e era cartão, dá pra pedir conversão pra empréstimo comum ou contestar o contrato como venda enganosa. A diferença prática entre os dois produtos está detalhada em cartão vs. empréstimo consignado.
5. Golpe do “recadastramento” do INSS
A pessoa recebe um SMS, e-mail ou ligação avisando que precisa “fazer o recadastramento do INSS pra não perder o benefício”. É mandado um link, ou pedido pra ir até uma “central” (que não existe) entregar documentos, ou instalar um app falso. Em algumas variações, o golpista marca uma “visita técnica” na casa do aposentado e leva os documentos originais.
A prova de vida, que é o procedimento real do INSS, não exige ir a lugar nenhum nem clicar em link. Desde 2023, o INSS faz a prova de vida automática cruzando bases de dados públicas (renovação de CNH, vacinação, recebimento de outro benefício). Quando o cruzamento não confirma, o próprio Meu INSS avisa e oferece formas seguras de confirmar, sem urgência artificial e sem link externo.
Sinais de alerta. SMS com link pedindo recadastramento, ligação dizendo que o benefício será cortado em 24h, “técnico” oferecendo recolher os documentos em casa, prazo curtíssimo, pedido pra pagar uma “taxa de regularização”.
O que fazer. Ignora a mensagem. Confere no app Meu INSS ou liga no 135, esses são os únicos canais oficiais. Se o seu benefício realmente precisar de alguma confirmação, vai estar lá. Nunca clique em link recebido por SMS, mesmo que pareça do gov.br.
A regra simples que cobre os cinco
Os golpes mudam de formato mas têm um padrão em comum: pressa, pedido de dado ou dinheiro, e canal que você não procurou. Quando aparece essa combinação, é golpe até prova em contrário. Não tem urgência verdadeira no INSS, benefício não é cortado em 24h, revisão não tem prazo de uma semana, e ninguém de verdade pede sua senha por telefone.
O golpista profissional aposta no susto. Ele liga em horário inconveniente, fala rápido, cria um problema imaginário e oferece uma solução que precisa ser tomada agora. A defesa mais simples, e mais eficaz, é cortar o ritmo dele. Desligar, respirar, conferir pelo canal oficial. Quase nenhum golpe sobrevive a uma pausa de cinco minutos pra confirmar.
Um passo concreto que reduz risco de uma vez por todas: ativar o bloqueio de novos consignados no Meu INSS. Sem essa autorização, banco nenhum consegue cadastrar empréstimo no seu nome, e o vetor mais comum desses golpes simplesmente deixa de funcionar. Pra blindar o cadastro contra o que pode acontecer no futuro, vale rodar também o checklist de proteção do CPF.