A regra que vale pra esse golpe é curta: pesquisa oficial nunca pede dado bancário, senha, número de benefício, código que chegou por SMS ou nome da mãe. Quando o telefone toca e a pessoa diz que é “do IBGE”, “do INSS” ou “de um instituto de pesquisa”, e depois das duas primeiras perguntas começa a perguntar data de nascimento completa, nome da mãe, número do CPF ou valor da aposentadoria, não é pesquisa. É coleta de dados pra fraude. O IBGE deixa isso por escrito em alerta oficial: o entrevistador não pede senha, não pede dado bancário e não pede transferência. O mesmo vale pro INSS, que não faz pesquisa por telefone pedindo essas informações. Quem ligou está montando um perfil seu pra usar em outro golpe, geralmente em até 72 horas.

Por que o questionário falso virou o golpe mais subestimado

A maioria das vítimas nem se lembra de ter caído. A ligação dura cinco minutos: “estamos fazendo uma pesquisa rápida sobre serviços públicos, a senhora pode me ajudar?” As primeiras perguntas são neutras, sobre bairro, idade aproximada, se mora sozinha. A vítima relaxa. Aí o golpista insere as perguntas que importam, misturadas em meio às inocentes. Duas semanas depois, aparece empréstimo consignado contratado em nome dela, ou alguém ligando do “banco” sabendo o nome da mãe e o número do benefício.

Em 2024, o INSS deflagrou a Operação Sem Desconto, que identificou aproximadamente R$ 2 bilhões em descontos não autorizados em benefícios de aposentados. Parte significativa das fraudes começou semanas antes, com coleta de dados por ligação disfarçada de pesquisa ou recadastramento. A Federação Brasileira de Bancos registrou crescimento de 65% nas tentativas de fraude bancária em 2023, e o método mais comum de entrada continua sendo engenharia social por telefone.

O que IBGE, INSS e bancos realmente pedem (e o que nunca pedem)

O IBGE faz pesquisa domiciliar e às vezes complementa por telefone. O conteúdo é sempre o mesmo: características do domicílio, número de moradores, escolaridade, ocupação, renda em faixas, nunca em valor exato. O entrevistador se identifica pelo nome e número de matrícula, e pode ser conferido pelo telefone 0800 721 8181. O alerta oficial publicado no portal do instituto é claro: o IBGE não pede senha, não pede número de cartão, não pede transferência por PIX, não pede instalação de aplicativo, não pede dado bancário.

O INSS não faz pesquisa por telefone. Comunicação oficial parte do Meu INSS, do 135 (quando você liga, não quando recebe) ou de carta. Qualquer ligação dizendo “pesquisa de satisfação do INSS” pedindo número de benefício ou senha do gov.br é golpe.

Banco também tem regra firme: não pede senha por telefone, não pede código que chegou por SMS, não pede que você faça PIX pra “validar” nada. A pesquisa real do banco é curta, pergunta sobre atendimento, nota de 0 a 10, e termina ali.

O que jamais é pedido em pesquisa legítima:

  • Senha de qualquer serviço (gov.br, banco, e-mail)
  • Código de verificação que chegou por SMS ou app
  • Número completo do cartão, validade ou CVV
  • Valor exato da aposentadoria
  • Nome completo da mãe
  • Número de benefício do INSS
  • Dado bancário (agência, conta, instituição)
  • PIX, transferência, depósito de “taxa” ou “validação”

Qualquer dessas perguntas na primeira ligação é sinal de golpe, independente do tom profissional.

Quatro sinais que entregam o pesquisador falso

Ligação de número celular ou número privado. Pesquisa oficial do IBGE liga de número verificável no 0800 721 8181. Banco usa central identificada. Quando o “pesquisador” liga de celular, número oculto ou número que muda toda hora, é sinal forte de golpe.

Pergunta sobre dado sensível na primeira ligação. Pesquisa legítima não pede CPF completo, nome da mãe, número de benefício ou valor exato de renda. Se aparecer, desliga e verifica pelo canal oficial.

Pressão pra responder agora. “É rápido, é importante pra estatística do governo.” Pesquisa oficial não tem pressa, pode ser remarcada. Pressa é arma de golpista.

Pedido pra instalar app, clicar em link ou confirmar código. Pesquisa de verdade não manda link, não pede instalação de aplicativo, não dita código pra você digitar. Quando aparecer, é golpe disfarçado de questionário.

Dois desses sinais juntos já bastam. Não é grosseria desligar de pesquisa suspeita, é prudência.

O que a LGPD diz sobre isso (e o que você pode exigir)

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) coloca o cidadão no controle dos próprios dados pessoais. Dois pontos da lei importam quando alguém liga pedindo informação:

Finalidade específica e legítima. O artigo 6º da LGPD determina que o tratamento de dados deve atender a “propósitos legítimos, específicos, explícitos e informados ao titular”. Ou seja, quem coleta dado seu é obrigado a te dizer pra que vai usar, antes de coletar. Pesquisa que não explica o propósito, ou que mistura propósito vago com pergunta sensível, está violando a lei.

Direito de saber, corrigir, eliminar. O artigo 18 garante que você tem direito a confirmar se uma empresa tem dado seu, a saber pra que ele foi usado e a pedir eliminação. Se suspeita que respondeu a pesquisa falsa, dá pra reclamar na Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e, em paralelo, no Procon e no consumidor.gov.br.

A LGPD não impede o crime, mas dá base pra exigir reparação. Quem usa dado pessoal pra obter vantagem ilícita comete o crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal, com pena de reclusão de 1 a 5 anos, mais multa. Quando a vítima tem 60 anos ou mais, o parágrafo 4º aumenta a pena em dobro.

O que fazer se você desconfia que já passou dado

A janela útil é curta. Cinco passos, na ordem:

  1. Anota o que foi perguntado e quando. Data, horário, número que ligou, nome que o golpista usou, o que você respondeu. Esses detalhes são prova depois.

  2. Troca senha do gov.br. Se o golpista tem CPF, data de nascimento e nome da mãe, ele pode tentar recuperar senha sozinho. Entra em gov.br pelo navegador, faz login, troca a senha e ativa verificação em duas etapas.

  3. Avisa o banco do benefício. Liga no telefone que está atrás do cartão, não no número que recebeu ligação. Pede bloqueio preventivo de PIX, cartão e operações por telefone, e alerta a equipe de antifraude.

  4. Bloqueia novos consignados no Meu INSS. Dentro do Meu INSS, tem opção pra bloquear contratação de novos empréstimos consignados. Ativa. Se o golpista tentar empréstimo em seu nome, a contratação não passa.

  5. Registra Boletim de Ocorrência. Pela delegacia eletrônica da Polícia Civil do seu estado. O BO formaliza o caso e serve de prova em qualquer contestação futura, mesmo que o prejuízo ainda não tenha aparecido.

Em paralelo, vale denunciar pelo Disque 100 (violência financeira contra pessoa idosa) e pela ANPD (se houve uso indevido de dado). Quanto mais canais registram o caso, maior a chance de virar investigação real.

Três hábitos que blindam contra o questionário falso

Não responder pesquisa que parte de canal que você não procurou. Se o IBGE liga, desliga e confirma no 0800 721 8181 antes de responder. Se o banco liga, desliga e retorna pelo número atrás do cartão. Se o INSS liga, desliga, porque o INSS não faz pesquisa por telefone, ponto.

Tratar dado sensível como dinheiro. Nome da mãe, CPF, data de nascimento completa e número de benefício são as senhas mais valiosas que você tem, porque destravam quase todos os outros cadastros. Não se entrega isso pra desconhecido por telefone.

Combinar com a família uma palavra de segurança. Pra quando a “central do banco” ligar sabendo dados seus e pedindo que você confirme outros. Se a pessoa do outro lado não conhece a palavra combinada, é golpe.

Pra ver o mapa amplo dos golpes contra aposentado, vale o guia dos 5 golpes financeiros mais comuns. E pro caso específico em que o golpe se passa pelo INSS, o material sobre a falsa central do INSS no WhatsApp.


O golpe da pesquisa falsa funciona porque trabalha com uma instituição que parece neutra. Quem desconfia de “central do banco” relaxa diante de “pesquisa do IBGE”, porque pesquisa parece coisa boa, coisa de governo fazendo estatística. O golpista sabe disso e usa exatamente essa confiança pra abrir caminho. A vítima é induzida a entregar dado sem perceber o peso do que está entregando.

A LGPD dá direito de exigir explicação clara antes de ceder qualquer dado pessoal. Quem coleta dado tem obrigação de dizer pra que. Pesquisa que não explica, que pressiona ou que pede dado sensível na primeira ligação não está apenas sendo grosseira, está fora da lei.

Se você lembrou agora de uma ligação parecida que recebeu nos últimos dias, o passo concreto que cabe fazer hoje é ativar verificação em duas etapas no gov.br e bloquear novos consignados no Meu INSS. São dois cliques cada um, e fecham as duas portas mais usadas por quem coletou seu dado pra usar depois. O dado já saiu, isso não dá pra desfazer. A fraude que ia vir depois ainda dá pra parar.