No golpe da maquininha trocada, o criminoso passa uma maquininha de cartão diferente da maquininha do estabelecimento, uma maquininha dele, programada pra mostrar no visor um valor pequeno (R$ 50, R$ 80) enquanto cobra um valor muito maior (R$ 500, R$ 800) no cartão. O cliente vê o visor, confia, digita a senha. Só percebe quando o extrato chega. A defesa é simples e cabe em uma regra: antes de digitar a senha, leia em voz alta o valor que está no visor e confirme que é o valor combinado. Se o estabelecimento for desconhecido, peça PIX em vez de cartão, o golpe da maquininha não acontece no PIX, porque o valor aparece na sua tela, não na tela do vendedor. Esse golpe é estelionato eletrônico, previsto na Lei 14.155/2021 com pena maior por mirar consumidor em situação de vulnerabilidade, e tem caminho de devolução pelo banco emissor do cartão.

Como o golpe funciona, duas variações no balcão

Na variação mais comum, o criminoso opera em comércio falso ou ambulante (vendedor de feira, de praia, falso entregador de móveis). Ele se aproxima com uma maquininha de aparência normal, pode ser maquininha legítima reprogramada, ou aparelho fabricado pra fraude. O visor mostra o valor combinado (R$ 50 por uma peça de roupa). O cliente passa o cartão, digita a senha. Só que a maquininha está conectada a uma conta do golpista, e o débito que sai do cartão é R$ 500, R$ 800, às vezes mais.

Na segunda variação, o golpista entra num comércio legítimo (loja, lanchonete, oficina) fingindo ser cliente e, no momento em que o lojista distrai, troca a maquininha verdadeira por uma falsa, idêntica por fora. O próximo cliente paga na maquininha do criminoso. O lojista descobre dias depois, quando os repasses do adquirente não batem com as vendas do caixa.

Em 2023, a Febraban registrou aumento de 65% nas tentativas de fraude bancária, com prejuízo estimado em R$ 2,5 bilhões, e fraudes presenciais com cartão, incluindo maquininha adulterada e clonagem em terminais, estão entre as categorias que mais crescem. O Disque 100 recebeu mais de 78 mil denúncias de violência contra pessoa idosa em 2023, e violência financeira é uma das categorias com crescimento mais acelerado, golpe da maquininha entra nesse mapa.

Os quatro sinais que entregam a maquininha, antes da senha

1. Vendedor que insiste em segurar a maquininha enquanto você digita. Maquininha legítima fica na sua mão pra você ler o valor com calma e digitar. Quando o vendedor insiste em virar a tela pra ele, segurar o aparelho, ou se posiciona entre você e o visor, bandeira vermelha. Você tem direito de pegar a maquininha e ler o valor antes de digitar a senha.

2. Visor com letras pequenas, valor mal mostrado ou tela suja. Maquininha de fraude muitas vezes tem o visor difícil de ler, letra pequena, brilho fraco, fita adesiva cobrindo parte da tela. Maquininha de comércio sério mostra o valor grande, claro, do tamanho que dá pra ler de longe. Se você precisa apertar o olho pra ver o número, pede pra repetir o valor em voz alta.

3. Maquininha desconhecida em ambulante ou venda na rua. Vendedor de praia, ambulante de semáforo, “entregador” de móvel que chega com maquininha na sua casa, são os ambientes mais comuns do golpe. Em ambulante ou venda na rua, prefira PIX. No PIX, o valor aparece na sua tela, com nome de quem vai receber, antes da senha, não tem visor de terceiro pra ser adulterado.

4. Pedido pra “passar de novo” depois da primeira tentativa. Tática comum: a primeira passada “não funciona” (mostra erro), e o vendedor pede pra você passar de novo. Na segunda passada, a maquininha é a falsa, ou o valor foi alterado. Quando uma maquininha falha, checa o extrato pelo app do banco antes de qualquer nova tentativa, em muitos casos, a “primeira” foi cobrada e a segunda dobra a perda.

O protocolo de cinco segundos, antes de digitar a senha

Decora essa sequência. Funciona em qualquer maquininha, qualquer comércio, qualquer valor:

  1. Leia o valor em voz alta. “Cinquenta reais, certo?” Vendedor honesto confirma sem hesitar. Golpista quase sempre desvia (“é, é, pode digitar”). O simples ato de ler em voz alta força o vendedor a confirmar e gera testemunha se houver alguém junto.

  2. Confirme a bandeira do cartão na tela. Maquininhas mostram a bandeira (Visa, Mastercard, Elo) quando o cartão é aproximado ou inserido. Se a bandeira não aparece, ou se aparece o nome de uma “empresa” que você não conhece em vez do logotipo do adquirente (Cielo, Rede, Stone, GetNet), pode ser maquininha falsa.

  3. Confirme o comprovante. Você tem direito a comprovante, em papel ou digital, com o valor cobrado, a bandeira, o nome do estabelecimento e o número da operação. O Código de Defesa do Consumidor, art. 14, responsabiliza objetivamente o fornecedor por defeitos na prestação de serviços, incluindo cobrança a maior. Sem comprovante, fica difícil contestar, então não saia da loja sem ele.

  4. Cheque o extrato pelo app do banco em até 24 horas. Maquininha falsa quase sempre cobra valor diferente do que aparece no visor. Conferir o extrato logo depois da compra é o jeito de pegar a diferença enquanto o caminho de contestação ainda está fresco. O alerta por SMS do banco (a maioria dos bancos oferece) avisa em tempo real quando algo é debitado.

  5. Em comércio desconhecido, prefira PIX. O PIX mostra valor e destinatário na sua tela antes de você confirmar. A Resolução BCB nº 102/2021 fixou os padrões de segurança do arranjo PIX, incluindo mostrar dados claros do recebedor antes da autorização. Cartão em maquininha de terceiro exige confiança no terminal; PIX exige confiança só no seu próprio celular.

Se você já passou o cartão e foi cobrado a mais

A regra é: quanto mais rápido você agir, maior a chance de devolução. O caminho tem quatro passos:

  1. Abre o app do banco emissor do cartão e contesta a compra. Procura a transação no extrato, clica em “contestar” ou “não reconheço essa compra” e marca como suspeita de fraude. Todo banco emissor de cartão é obrigado a oferecer canal de contestação (chargeback). O banco abre uma disputa com o adquirente da maquininha, que tem prazo de até 90 dias pra responder. Se a fraude for confirmada, o valor é estornado.

  2. Registra Boletim de Ocorrência. Pode ser pela delegacia eletrônica do seu estado ou presencial. O crime é estelionato eletrônico, previsto no Código Penal, art. 171, §2º-A, com pena aumentada de um terço a dois terços quando praticado por meio fraudulento eletrônico. O BO fortalece o pedido de devolução no banco e abre investigação criminal.

  3. Denuncia o estabelecimento ao Procon e ao adquirente da maquininha. Cielo, Rede, Stone, GetNet têm canais oficiais de denúncia, o número da maquininha (impresso no comprovante) ajuda a identificar o terminal. O Código de Defesa do Consumidor, no art. 14, diz que “o fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços”. Isso significa que o estabelecimento responde pelo prejuízo do cliente, mesmo que diga que “foi a maquininha”.

  4. Denuncia ao Disque 100 se você tem 60+ anos. O Disque 100 (Disque Direitos Humanos) recebe denúncia de violência financeira contra pessoa idosa. Liga no 100, fala pelo WhatsApp ou pelo site. Pode ser anônima.

Três hábitos que protegem no dia a dia

1. Cartão com limite reduzido pra uso na rua. Muitos bancos oferecem cartão virtual ou “secundário” com limite que você controla pelo app. Pra compras em ambulante ou loja desconhecida, mantém limite baixo (R$ 200, R$ 500). Mesmo que a maquininha seja falsa, o prejuízo máximo é o limite.

2. SMS de alerta ativo em todo cartão. Todo banco oferece SMS ou notificação por app pra cada compra. Ativa e deixa ligado. É o sinal de alerta que avisa em segundos se algo foi cobrado errado, quanto antes você descobre, maior a chance de bloquear a fraude antes do dinheiro sair.

3. PIX como padrão em ambulante e venda na rua. Não tem visor adulterável. Você lê o valor e o destinatário na sua tela, com a chave PIX visível. Em estabelecimento desconhecido, a fricção do PIX é menor que o risco do cartão.

O que fica de tudo isso

A maquininha trocada engana porque o golpe acontece no único segundo em que a maioria das pessoas baixa a guarda: depois que o vendedor sorriu, depois que o aparelho chegou na mão, antes da senha. Não é falta de atenção, é a velocidade da rotina. A defesa não exige bicho de sete cabeças, exige um único hábito firme: ler o valor em voz alta antes de digitar, e em ambulante ou venda na rua trocar o cartão pelo PIX. Quem incorporou esses dois gestos não cai mais, mesmo que a maquininha seja perfeita por fora.

Quando o estrago já aconteceu, o tempo é o que decide o tamanho da perda. Contestação pelo app do banco, BO online e denúncia no adquirente nas primeiras 24 horas devolvem dinheiro que, depois de uma semana, fica preso na fila de chargeback. O caminho existe, está na lei e funciona, mas pede que você ande nele rápido e com os papéis na mão (comprovante, número da maquininha, extrato impresso).

Esse golpe é só uma das versões do crime contra aposentado. O mapa completo com empréstimo não autorizado, falsa central do INSS, falso advogado e outros formatos está em os 5 golpes financeiros mais comuns contra aposentado, e o conjunto de leis e canais oficiais que protegem quem tem 60+ está no guia de defesa do aposentado contra bancos, lojas e golpistas.