O golpe do amor, também chamado de romance scam, é uma fraude em que alguém finge interesse romântico por uma pessoa idosa solitária, em geral viúva ou viúvo, e depois de meses de mensagens carinhosas pede dinheiro pra uma “emergência médica”, uma “passagem pra finalmente te visitar” ou uma “taxa pra liberar herança”. A vítima não é “boba”. É alvo escolhido com cuidado, abordada num momento de saudade, e levada por semanas ou meses de conversa que parecem genuínas. Quando o pedido de dinheiro chega, o laço emocional já está montado. Reconhecer o padrão antes do primeiro Pix é a melhor proteção. Quem já foi vítima tem amparo legal, Estatuto do Idoso, art. 102 e Código Penal, art. 171, e canais oficiais pra denúncia: Disque 100, Polícia Civil e Polícia Federal.

Os números mostram o tamanho do problema. Em 2023, o Disque 100 recebeu 57.880 denúncias envolvendo pessoas idosas, alta de 59% sobre 2022, segundo o Ministério dos Direitos Humanos, e a violência financeira/patrimonial está entre os três tipos mais frequentes. Em 2024, as denúncias contra idosos continuaram crescendo, com mais de 70 mil registros no canal. O golpe do amor entra nessa estatística sob o rótulo de violência patrimonial, e cresce porque é silencioso: a vítima esconde por vergonha.

Este guia mostra como o golpe é montado, os sinais que aparecem antes do pedido de dinheiro, e o que fazer se você ou alguém da família caiu.

Como o golpe funciona, passo a passo do fraudador

O roteiro varia pouco. O fraudador cria um perfil em rede social (Facebook, Instagram), aplicativo de relacionamento ou grupo de WhatsApp. A foto é boa demais, quase sempre roubada de um militar, médico, engenheiro ou estrangeiro de meia-idade. A história é construída pra gerar empatia: vive sozinho, perdeu a esposa, trabalha numa plataforma de petróleo no exterior, ou está em missão das forças armadas em outro país.

Vem o contato. Mensagem amável, pedido de amizade. Nos primeiros dias, ele escuta mais do que fala. Pergunta da família, dos netos, da rotina. Manda bom dia e boa noite. Em duas ou três semanas, já fala em “saudade” e “vontade de te conhecer pessoalmente”. O laço se aprofunda por meses. Pode haver troca de áudios, mas vídeos sempre são recusados, “internet ruim”, “câmera quebrada”, “regulamento do trabalho”.

Aí chega o pedido. Sempre com pressa, sempre com história emocional. Hospital cobrando, alfândega segurando uma encomenda, passagem que precisa ser paga até sexta-feira. O valor é alto, mas “ele devolve assim que chegar no Brasil”. A vítima manda. O golpista pede mais. E mais. Quando a família descobre, o prejuízo já passou de R$ 30, R$ 50, R$ 100 mil, economia da vida toda.

Por que mira viúvas e viúvos

A escolha do alvo não é aleatória. O fraudador procura perfis em redes sociais com posts sobre saudade do marido ou da esposa, grupos de aposentados, comunidades de igreja, fotos de pessoa sozinha em datas comemorativas. Quem perdeu o cônjuge recentemente e tem renda estável (aposentadoria, pensão) é o alvo preferido.

A solidão é a variável que o golpista explora. Não é fraqueza de caráter, é circunstância. O atendimento de uma “voz amiga” todos os dias preenche um vazio real. O golpista sabe disso e age com paciência. Não tem pressa nas primeiras semanas, cada dia de conversa fortalece o laço.

Esse é também o motivo de a família muitas vezes não enxergar o problema cedo. A vítima esconde porque tem vergonha de admitir que “se apaixonou” por alguém que nunca viu, ou porque a família já alertou e ela respondeu que “ele é diferente”. Quando o golpe vira público, o sentimento dela é dobrado: prejuízo financeiro e luto da relação que ela acreditava ser real.

Sinais de alerta antes do dinheiro sumir

Reconhecer cedo muda o desfecho. Os sinais abaixo aparecem em quase todos os casos:

  1. Foto perfeita demais, uniforme militar, médico de jaleco, executivo em foto profissional. Coloca a foto no Google Imagens reverso ou no TinEye, se aparecer em outros perfis com outros nomes, é golpe.
  2. Recusa de videochamada. Sempre tem desculpa: internet ruim, câmera quebrada, regulamento militar. Toda recusa de vídeo por mais de duas tentativas é bandeira vermelha.
  3. Mora longe e nunca pode visitar. Trabalha em outro país, em plataforma de petróleo, em missão militar. E sempre existe motivo pra você também não poder visitar.
  4. Português estranho, construção literal de inglês, palavras erradas. Muitos golpes vêm de quadrilhas estrangeiras usando tradutor automático.
  5. Pressa pra intimidade emocional. Em duas semanas já está falando em “casamento”, “viver junto”.
  6. Conta da história não bate. Mês passado disse um filho, esse mês fala de dois. Profissão mudou.
  7. Pedido de dinheiro com urgência e história emocional. Sempre prazo apertado. Sempre “ele devolve em breve”.

Um sinal isolado pode não significar nada. Dois ou três juntos quase sempre são golpe.

As três desculpas clássicas

Os pedidos de dinheiro seguem três roteiros principais. Conhecer os roteiros ajuda a reconhecer cedo.

Emergência médica. “Tive um acidente, estou no hospital, precisam pagar antes de operar.” A história vem com detalhes, nome do hospital (que existe), valor exato, prazo curto. Hospital nenhum em país sério cobra cirurgia urgente por transferência internacional de pessoa que nunca viu o paciente.

Passagem para finalmente visitar. Esse é o mais comum. Depois de meses falando em “vontade de te conhecer”, o fraudador anuncia que conseguiu vir, só precisa de ajuda com a passagem, taxa de visto, ou pagamento de excesso de bagagem. A pessoa transfere. O voo “atrasa”. Surge outra taxa.

Liberação de herança ou valor preso na alfândega. “Recebi uma herança e a alfândega precisa de uma taxa pra liberar.” Promete dividir o valor depois. A taxa nunca é a única, sempre vem uma segunda, uma terceira.

Detalhe importante: se a vítima hesita, o golpista chora, ameaça suicídio, manda “fotos do hospital”. Pressão emocional pesada, feita pra confundir alguém que já está envolvido afetivamente.

O que fazer se já caiu

Quem percebeu que está em golpe ou que um parente está, agir rápido muda o desfecho. Passos práticos:

  1. Parar de transferir imediatamente. Mesmo que o golpista chore ou ameace, toda transferência adicional aumenta o prejuízo e não traz nenhum dinheiro de volta.
  2. Cortar contato e bloquear em todas as redes. O fraudador vai tentar voltar com outra identidade, bloquear de novo.
  3. Guardar tudo. Prints das conversas, comprovantes de Pix, dados do perfil, telefone, e-mail. Tudo vira prova.
  4. Registrar boletim de ocorrência (BO) na Polícia Civil ou pela delegacia eletrônica do estado. O BO abre a investigação e dá base pra ressarcimento.
  5. Denunciar à Polícia Federal quando o fraudador usar contas no exterior, a PF investiga crime cibernético transnacional.
  6. Ligar pro Disque 100. Anônimo, 24 horas, encaminha pra rede de proteção do idoso e gera registro oficial no MDHC.
  7. Procurar o banco. Pelo mecanismo de devolução, Mecanismo Especial de Devolução do Bacen, Pix feito por fraude pode ser revertido dentro de até 80 dias. Quanto mais rápido, melhor.
  8. Conversar sem julgamento. O dinheiro dói, mas o luto da relação inventada dói mais. Apoio terapêutico e ambiente acolhedor são parte da recuperação.

A lei brasileira trata o golpe do amor contra idoso como crime grave. Duas bases pesam:

Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), art. 102: “Apropriar-se de ou desviar bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da de sua finalidade”, pena de reclusão de 1 a 4 anos, mais multa. O artigo cobre o caso do golpista que se aproveita da fragilidade emocional pra desviar dinheiro de aposentadoria, pensão ou economia da vítima. O art. 106 também pesa quando o golpista pediu dados bancários, cópia de documento ou senha como parte da fraude.

Código Penal, art. 171 (estelionato): “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”, pena de reclusão de 1 a 5 anos. E o § 4º prevê que a pena aumenta de 1/3 ao dobro quando o crime é praticado contra pessoa idosa ou vulnerável. Golpe do amor contra alguém com 60+ pega aumento legal de pena. A combinação Estatuto + estelionato com pena aumentada é o que costuma ser denunciado pelo Ministério Público nos processos.

Como conversar com quem está sendo enganado

A pessoa que está no meio do golpe não está racional sobre ele, está apaixonada, iludida, ou com vergonha. Conversar mal empurra pra mais isolamento. O que ajuda:

  • Não chamar de boba ou ingênua. Cair não é falta de inteligência, é vulnerabilidade emocional explorada por profissional.
  • Mostrar sinais concretos, não acusar. “Mãe, vi essa mesma foto em outro perfil com outro nome” pesa mais do que “larga isso”.
  • Pedir uma videochamada com ele. Mais uma recusa vira evidência pra própria vítima ver.
  • Procurar apoio fora da família. Médico de confiança, padre, pastor, terapeuta, assistente social do CRAS. Às vezes a palavra de um terceiro entra onde a da família já não entra.
  • Não cortar a pessoa do convívio. O golpista quer isolamento. Família que se afasta facilita.
  • Acolhimento antes de culpa. “A gente resolve isso junto” pesa mais do que “eu avisei”.

O golpe do amor é cruel porque rouba duas coisas ao mesmo tempo: o dinheiro e a relação. Quando o golpe vem à tona, a vítima carrega dois lutos, a economia que sumiu e a pessoa que nunca existiu. Por isso a defesa começa muito antes do primeiro Pix: começa em conversar com a família sobre quem está chegando, em desconfiar de quem recusa videochamada por meses, em pesquisar a foto no Google reverso na primeira semana.

Pra quem está na pele de quem percebeu a fraude em parente, vale lembrar: julgar afasta, acolher aproxima. A pessoa que caiu já está sentindo vergonha sozinha, o papel da família é abrir caminho pra denúncia sem repetir “eu falei”. E pra quem percebeu por conta própria, parar de transferir hoje vale mais que qualquer recuperação tentada depois.

A janela de 80 dias do mecanismo de devolução do Banco Central pra reverter Pix feito sob fraude é curta. BO, denúncia no Disque 100, contato com o banco e bloqueio do contato em todas as redes são os primeiros passos, e cada um pesa pra reduzir o prejuízo do próximo alvo.

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