O golpe da herança é uma fraude em que a vítima recebe mensagem, e-mail, carta ou ligação dizendo que herdou uma fortuna de parente distante no exterior, ou ganhou loteria internacional, e que, pra “liberar” o dinheiro, precisa pagar taxa adiantada de transferência, imposto ou honorário de advogado. Não existe herança que se libere com Pix. O dinheiro nunca chega: o golpista pede cada vez mais taxas até a vítima parar. É crime pelo Código Penal, art. 171, estelionato, com tipificação reforçada desde 2021 pela Lei 14.155/2021, que criou a figura da fraude eletrônica, pena de 4 a 8 anos quando praticado por mensagem, e-mail ou rede social. A pena aumenta de 1/3 ao dobro quando a vítima tem 60 anos ou mais.
Os números mostram o tamanho do problema. Em 2024, o Disque 100 bateu recorde de denúncias contra a pessoa idosa, com mais de 70 mil registros no ano, e a violência patrimonial está entre os tipos mais frequentes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 também registra forte crescimento do estelionato eletrônico no país, com a maior parte dos casos vindos de mensagens, e-mails e redes sociais. O golpe da herança entra direto nessa estatística, e fica oculto, porque muita vítima esconde por vergonha.
Como o golpe da herança funciona
O roteiro é antigo, surgiu nos anos 1980 com cartas vindas da Nigéria pedindo ajuda pra liberar herança de general morto, e foi adaptado pra WhatsApp, e-mail e rede social. Hoje o contato chega de três formas.
Por e-mail ou mensagem. “Sou advogado em Londres. Estou tentando localizar herdeiros do sr. Fulano de Tal, morto sem deixar testamento. Pelo seu sobrenome, acredito que você é parente.” Vem com timbre falso e número de processo inventado.
Por carta. Envelope timbrado, papel grosso, selo estrangeiro. “Notificação oficial de herança.” Pede que você ligue pra um 0800 ou mande e-mail pra um “departamento de heranças internacionais”.
Por loteria internacional. “Parabéns! Seu número foi sorteado na Loteria Espanhola.” A pessoa não jogou, mas o golpista diz que foi cadastro automático ou sorteio promocional.
Os três caminhos terminam no mesmo lugar: pra “liberar” o dinheiro, a vítima precisa pagar antecipado. Taxa de transferência. Imposto de importação. Honorário do advogado. Selo de cartório. Cada pedido vem com prazo curto e história emocional. Pago o primeiro, surge o segundo. E o terceiro.
Por que o público 60+ é alvo preferido
A escolha do alvo não é por acaso. Listas com nomes e idades de aposentados circulam no mercado clandestino de dados, e três fatores tornam o público 60+ mais visado:
- Renda estável. Aposentadoria ou pensão do INSS é dinheiro previsível, o golpista sabe que entra no quinto dia útil.
- Confiança em documento físico. Quem cresceu antes da internet ainda atribui peso a papel timbrado e carta com selo. O golpista explora essa cultura.
- Sonho de “deixar pros filhos”. Muita gente que trabalhou a vida toda sonha em deixar herança pros netos. A promessa de receber uma de surpresa fala direto com esse desejo.
Não é falta de inteligência, é vulnerabilidade emocional explorada por quadrilha profissional. Cair não é culpa da vítima.
Os quatro sinais que sempre aparecem antes do prejuízo
Os sinais abaixo aparecem em praticamente todos os casos documentados pela polícia. Um sozinho pode ser nada. Dois ou três juntos é golpe quase certo.
- Contato vindo de estranho. Você não conhece o tal “parente que morreu”. Não sabe quem é o advogado. Nunca ouviu falar do escritório. Em herança verdadeira, o cartório no Brasil avisa pela vara de família, não por e-mail de Londres.
- Valor irreal. Sempre cifras gigantes, US$ 2 milhões, 5 milhões de euros. Herança real raramente bate esse patamar, e quando bate, vem com processo formal, advogado próprio e meses de inventário.
- Urgência. “Você tem 48 horas pra responder ou o dinheiro vai pra fundo perdido do Estado.” Pressa é a marca registrada do golpe, não dá tempo da pessoa pensar nem consultar a família.
- Pedido de taxa antecipada. Esse é o sinal definitivo. Em qualquer herança real no Brasil ou no exterior, as taxas e impostos são pagos depois, descontados do valor recebido, nunca antes, nunca por Pix ou transferência pra conta pessoal. A Receita Federal não cobra taxa por Pix; banco sério também não.
Se aparecer pedido de pagamento adiantado, é golpe. Sem exceção.
O que dizem o Código Penal e a Lei 14.155/2021
O Código Penal, art. 171 define estelionato assim: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.” A pena base é reclusão de 1 a 5 anos, mais multa.
A Lei 14.155/2021 inseriu no art. 171 o § 2º-A, fraude eletrônica, com pena de 4 a 8 anos de reclusão quando o estelionato é cometido “por meio de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo”. É exatamente o caso do golpe da herança quando chega por WhatsApp, e-mail ou Facebook. O § 4º ainda prevê aumento de 1/3 ao dobro quando o crime é contra pessoa idosa ou vulnerável, o golpe contra alguém com 60+ pega aumento por duas vias. Quadrilhas que operam do exterior são investigadas pela Polícia Federal, porque envolvem crime cibernético transnacional. O Ministério da Justiça orienta que registros formais alimentam as estatísticas usadas pra direcionar essas operações.
O que fazer se recebeu a mensagem
Pra quem ainda não mandou dinheiro, o caminho é simples e curto:
- Não responde. Nem pra dizer “não tenho interesse”. Resposta confirma pro golpista que o número está ativo, e ele volta em semanas.
- Não clica em link nenhum. Links em e-mail de golpe podem instalar vírus ou levar pra página falsa de banco.
- Bloqueia o contato. Número, e-mail, perfil. Marca como spam, denuncia na plataforma.
- Guarda a mensagem como prova. Print completo, com data, número de origem e texto. Não apaga.
- Conta pra família. Contar pra um filho ou neto evita que a pessoa caia se a abordagem voltar mais elaborada.
- Registra boletim de ocorrência (BO). Pessoalmente ou pela delegacia eletrônica do estado. Passo a passo no guia de como fazer BO de fraude financeira. Mesmo sem prejuízo, o BO alimenta a investigação.
Se o golpe vier do exterior, denunciar à Polícia Federal, ela investiga crime cibernético transnacional.
O que fazer se já mandou dinheiro
Se a transferência já saiu, agir rápido muda o desfecho:
- Parar imediatamente. Mesmo que o golpista pressione, ameace ou chore, toda transferência adicional aumenta o prejuízo e não recupera o que já foi.
- Procurar o banco ainda no mesmo dia. Pelo mecanismo de devolução, Mecanismo Especial de Devolução do Bacen, Pix feito sob fraude pode ser revertido em até 80 dias, desde que o banco do destinatário ainda tenha o saldo bloqueado.
- Registrar BO com todas as provas. Prints das mensagens, comprovantes de transferência, dados do “advogado” ou “departamento”, e-mails recebidos. Quanto mais material, melhor a chance de investigação.
- Ligar pro Disque 100. Anônimo, 24 horas. Encaminha pra rede de proteção do idoso e gera registro oficial no MDHC.
- Não pagar mais nada pra “tentar recuperar”. Aqui mora um segundo golpe: gente que se passa de “recuperador de valores perdidos em fraude” e pede taxa adiantada pra ajudar. É o mesmo crime, com roupa nova.
Como conversar com quem já caiu
Quem está esperando “a herança liberar a qualquer momento” não enxerga com clareza. Conversa mal feita empurra pra mais pagamento escondido da família. O que ajuda:
- Não chamar de bobo ou ingênuo. Cair em golpe profissional não é falta de inteligência. Vergonha empurra a vítima pra esconder.
- Mostrar os sinais concretos. “Mãe, repara: nenhuma herança no mundo cobra taxa antes do dinheiro chegar. Quem cobra antes é golpe.”
- Pedir pra ver os documentos juntos. Lendo com calma, aparece nome estranho, erro de português, número de processo que não existe.
- Buscar apoio fora da família. Médico de confiança, padre, pastor, assistente social do CRAS, às vezes a palavra de um terceiro entra onde a da família já não entra.
O golpe da herança sobrevive há décadas porque mexe com duas coisas muito humanas: o sonho de deixar algo pros filhos e a esperança de que a sorte enfim sorria. O golpista profissional sabe disso e trabalha em cima dessas duas portas. A defesa não é ser desconfiado de tudo, é gravar uma regra única: nenhuma herança no mundo cobra taxa antes do dinheiro chegar. Pagamento antecipado pra liberar valor é sempre golpe.
Quem recebeu a mensagem e está em dúvida, o caminho mais seguro é não responder, bloquear, salvar o print e contar pra alguém da família antes de tomar qualquer decisão. Conversar abre o jogo, o silêncio é o que o golpista quer.
Quem já mandou dinheiro tem 80 dias do mecanismo de devolução do Banco Central pra tentar reverter um Pix feito sob fraude, e tem o registro do BO como base pra investigação. Não é garantia de recuperação, mas é o caminho que existe, e cada denúncia formal alimenta as operações que desmontam quadrilha.
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